Esta quinta-feira (24) tem um sabor agridoce para a sociedade e as autoridades sérias da cidade da Londrina. Se por um lado o aniversário da Operação Zona Residencial 3 (ZR3) comemora o desmantelamento de um esquema de corrupção que se estendeu por anos dentro da estrutura política da cidade, significando um passo importante rumo ao fim da impunidade, por outro reforça o sentimento de descrença do povo na idoneidade e no caráter dos representantes que ele mesmo elegeu para si.
Os fatos apurados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) teriam acontecido entre 2013 e 2017 e apontam para a existência de um conchavo de empresários com vereadores e servidores municipais, os quais recebiam propina para facilitar mudanças pontuais no zoneamento da cidade, a fim de favorecer os interesses dos primeiros.
A seguir, você acompanha um dossiê cronológico com o passo a passo da operação, que há exatamente um ano vem estremecendo, positiviamente, a rotina política de Londrina.
24/01/2018
Gaeco cumpre 25 mandados de busca e apreensão na Câmara Municipal de Londrina e em outros locais na cidade. Os vereadores Rony Alves (PTB) e Mário Takahashi (PV), acusados de serem os chefes do esquema, têm os pedidos de prisão negados pela Justiça, mas passam a ser monitorados por tornozeleira eletrônica. São, também, afastados das funções no legislativo pelo prazo de 180 dias.
A relação dos investigados pela operação incluía, além dos dois vereadores, o assessor de Rony, Evandir Duarte de Aquino; a ex-diretora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Ignês Dequech Alvares; ex-secretário municipal de Obras, Ossamu Kaminagakura; o ex-secretário do Meio Ambiente, Cleuber Moraes Brito; e os empresários Vander Mendes Ferreira, Brasil Filho Mello de Souza, Homero Wagner Fronja e José de Lima Castro Neto.

25/01/2018
O ex-prefeito de Londrina, Alexandre Kireeff (Podemos), comparece à sede do Ministério Público a fim de prestar esclarecimentos que pudessem colaborar com as investigações em curso. Parte do período em que o esquema teria se desenrolado coincidira com a gestão de Kireeff à frente do município.
“Este tipo de coisa não chega na prefeitura. A separação dos poderes era muito nítida durante nossa gestão. As discussões sobre o Plano Diretor foram muitos intensas, mas fora isso, não conversei com eles [Rony e Takahashi]”, afirmou a época o ex-líder do executivo, em entrevista à Rádio Paiquerê.
26/01/2018
O então vereador Filipe Barros (PSL), hoje deputado federal eleito, entra com pedido de cassação de mandato de Mário Takahashi e Rony Alves, alegando quebra de decoro.
29/01/2018
Delegado do Gaeco responsável pelas investigações, Alan Flore divulga o conteúdo de três conversas interceptadas pelo grupo – uma delas cita nominalmente um terceiro vereador, Eduardo Tominaga (DEM). Fica demonstrado o interesse da organização criminosa em impedir a criação do Conselho da Cidade (Concidade), visto como “uma ameaça” pelos envolvidos no esquema.
Ministério Público recomenda à Prefeitura de Londrina a criação de um projeto de lei que altere o Plano Diretor e a lei de zoneamento de uso e ocupação do solo urbano de Londrina, como forma de se precaver de possíveis alterações visando interesses particulares.
Rony e Takahashi têm os salários suspensos, por decisão da Mesa Executiva da Câmara Municipal.

31/01/2018
Eduardo Tominaga nega qualquer relação com o esquema criminoso, apesar de ter sido citado em conversa entre Rony Alves e Luiz Guilherme Alho, interceptada pelo Gaeco. “Eu fico com a consciência tranquila porque nunca participei e nunca vou participar de nenhum esquema para beneficiar ciclano ou beltrano”, declara.
01/02/2018
Ministério Público começa a colher depoimentos dos 11 investigados. Brasil Filho Mello de Souza, empresário, é o primeiro a ser ouvido.
05/02/2018
Procuradoria Jurídica da Câmara Municipal de Londrina apresenta análise técnica do pedido de abertura de Comissão Processante para definir a cassação dos mandatos dos vereadores Rony Alves e Mário Takahashi por quebra de decoro, conforme pedido de Filipe Barros. Estipula-se prazo de dez dias para Takahashi e Rony apresentarem defesa prévia.
07/02/2018
É divulgada nova gravação interceptada pelo Ministério Público. Trata-se de uma conversa telefônica entre Rony Alves e Luiz Guilherme Alho, cujo teor dá a entender que Mário Takahashi teria permitido a ambos falarem a respeito de pagamento de propina com o dono de um terreno na zona leste da cidade. O encontro dos dois investigados com o proprietário, de acordo com as investigações, levou-se a cabo três dias depois.
09/02/2018
Ministério Público oferece denúncia contra 13 pessoas pelos crimes apurados no âmbito da Operação ZR3. Aos 11 inicialmente investigados, somam-se outros dois: os empresários Antônio Carlos Gomes Dias e Júlio César Cardoso.
20/02/2018
O juiz da 2ª Vara Criminal de Londrina, Délcio Miranda da Rocha, aceita denúncia do Ministério Público contra os 13 acusados pela Operação ZR3, que passam de meros investigados a réus. Determina-se o prazo de dez dias para apresentação de defesa prévia.

28/02/2018
Justiça ordena a prisão preventiva de três dos réus da operação: os empresários Luiz Guilherme Alho e Vander Mendes Ferreira e o ex-secretário de Obras, Ossamu Kaminagakura. Segundo o promotor Leandro Antunes, pedido de prisão foi determinado após a análise de materiais apreendidos que implicavam diretamente o trio.
07/03/2018
Advogados de Rony Alves e Mário Takahashi entregam defesa prévia à Procuradoria Jurídica da Câmara Municipal de Londrina, pedindo o arquivamento da representação que sugere a cassação dos mandatos da dupla.
08/03/2018
Vander Ferreira Mendes consegue habeas corpus e deixa a prisão na Casa de Custódia de Londrina (CCL). Ele passou uma semana detido.
20/03/2018
Tribunal de Justiça do Paraná cassa liminar que concedeu liberdade a Vander Ferreira, que volta para a cadeia.
17/04/2018
Câmara Municipal dá abertura à Comissão Processante que apura a quebra de decoro e a possibilidade de consequente cassação de mandato por Alves e Takahashi. Mesmo afastados judicialmente das funções no legislativo, ambos conseguem autorização especial para assistirem à sessão e poderem se defender.
01/06/2018
Justiça restabelece o pagamento de salário, interrompido desde 29 de janeiro, ao vereador Rony Alves, no valor de R$ 12,9 mil mensais. Decisão é uma resposta ao pedido da defesa do parlamentar, que alega ausência de respaldo legal no corte dos vencimentos e falta de recursos para subsistência do acusado.
07/06/2018
Preso há três meses, Ossamu Kaminagakura tem liberdade concedida pela Justiça. O autor da sentença, juiz Délcio Miranda, entende que o réu já não apresenta mais risco às investigações. Assim como os demais investigados, Kaminagakura passa a ser monitorado por tornozeleira eletrônica.
12/06/2018
Luiz Guilherme Alho também logra a concessão de habeas corpus e deixa o regime de prisão domicilar, a que estava submetido desde o dia 10 de março.
13/06/2018
Câmara de Londrina recorre da decisão que restabelece o salário de Rony Alves. Informação é confirmada à imprensa pelo procurador jurídico do legislativo municipal, Miguel Aranega.
15/06/2018
Juíza da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná indefere recurso da Câmara e mantém posição judicial anterior que ordenava o retorno dos vencimentos de Rony Alves como vereador.
24/07/2018
Na data que marcaria o fim do afastamento judicial de Rony e Takahashi de suas funções na Câmara, Justiça ordena a prorrogação do prazo dantes estabelecido por mais 180 dias.
23/08/2018
Tal como o colega Rony Alves dois meses antes, Mário Takahashi também consegue na Justiça o restabelecimento de seu salário enquanto vereador, mesmo afastado.
16/09/2018
Em sessão extraordinária em pleno domingo, a Câmara de Londrina absolve Rony e Takahashi das acusações de quebra de decoro, evitando, assim, a cassação dos mandatos de ambos parlamentares.

22/12/2018
Após alguns meses em banho-maria, o assunto Operação ZR3 ganha uma reviravolta com a prisão preventiva de Rony Alves. A acusação é de que ele teria ameaçado dias antes o agricultor Júnior Zampar, principal testemunha da investigação, próximo a uma agência bancará no Centro, a fim de intimidá-lo com relação a seus futuros depoimentos no caso. Imagens da câmera de segurança da agência respaldam a versão de Zampar, corroborada também pelos relatórios de geolocalização da tornozeleira do vereador.
04/01/2019
Um dia após ter o relaxamento de sua prisão preventiva negado, Rony Alves consegue habeas corpus e deixa a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Ele passou quase duas semanas atrás das grades.
21/01/2019
Justiça prorroga outra vez, por mais 45 dias, o afastamento de Rony Alves e Mário Takahashi da Câmara, a três dias do vencimento do prazo original. Após esse período, juiz promete avaliação definitiva do pedido do Ministério Público de mais seis meses de afastamento.